quarta-feira, 21 de março de 2012

É Primavera... É Poesia



Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera
passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu
tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter
preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro

terça-feira, 18 de maio de 2010

SÓ PORQUE... FERNANDO PESSOA

Há metafísica bastante em não pensar em nada.


O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
(…)


O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
(…)

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(…)


Alberto Caeiro – (Fernando Pessoa)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

SÓ PORQUE... DRUMMOND



Acordar, Viver


Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 16 de maio de 2010

SÓ PORQUE... É LINDA


FAZER O QUE AINDA NÃO FOI FEITO

Sei que me vês
Quando os teus olhos me ignoram,
Quando por dentro eu sei que choram.
Sabes de mim,
Eu sou aquele que se esconde,
Sabe de ti sem saber onde,
Vamos fazer o que ainda não foi feito.
Trago-te em mim
Mesmo que chova no verão,
Queres dizer Sim, mas dizes: “Não”,
Vamos fazer o que ainda não foi feito.

Eu sou mais do que te invento,
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pr’a contar.

Vem esta noite,
Fomos tão longe a vida toda,
Somos um beijo que demora,
Porque amanhã é sempre tarde demais.

Eu sei que dói,
Sei como foi
Andares tão só por essa rua
As vozes que te chamam e tu na tua,
Esse teu corpo é o teu porto é o teu jeito,
Vamos fazer o que ainda não foi feito.
Sabes quem sou,
Para onde vou
A vida é curva,
Não uma linha,
As portas que se fecham e eu na minha,
A tua sombra é o lugar onde me deito,
Vamos fazer o que ainda não foi feito.

Eu sou mais do que te invento,
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pr’a contar.


Vem esta noite,
Fomos tão longe a vida toda,
Somos um beijo que demora,
Porque amanhã é sempre tarde demais.

Tens uma estrada,
Tenho uma mão cheia de nada,
Somos um todo imperfeito,
Tu és inteira e eu desfeito,
Vamos fazer o que ainda não foi feito.

Eu sou mais do que te invento,
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pr’a contar.

Vem esta noite,
Fomos tão longe a vida toda,
Somos um beijo que demora,
Porque amanhã é sempre tarde demais.

Pedro Abrunhosa

sábado, 15 de maio de 2010

SÓ PORQUE... PARA ONDE IR?

À deriva...



O que fazer para chegar ao cais?


sexta-feira, 14 de maio de 2010

SÓ PORQUE... É PRECISO TER FÉ



O que é preciso para ter fé?

Numa altura em que a visita do Papa Bento XVI a Portugal está na ordem do dia, urge perguntar: o que une milhares de pessoas em redor de alguém que é apenas humano? o que faz com que milhares de pessoas sigam os seus passos (literalmente) e vão atrás dos sítios por onde esta pessoa passa?

Acredita-se no que se quer acreditar ou a fé é algo que surge do interior de cada um?
Espera-se “recompensa" ou é abnegação, apenas dádiva?
Porque precisam as pessoas de um representante do seu Deus na terra?
Que “magia” irradia uma pessoa, não obstante a sua grande eloquência e inteligência (como referem muitos pensadores) para conseguir unir milhares à sua volta?

Como perguntou um dia um escritor, diante da morte do seu pai e da sua infinita e profunda infelicidade, “onde está Deus agora?”
Eu também pergunto: não quer um pai ver todos os seus filhos felizes? então o que se passa, meu Deus, que tantos dos teus filhos se sentem (e são) os mais infelizes do mundo?

Eu (gostava) queria ter fé...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

SÓ PORQUE... AMO


As sem razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade